Dois acontecimentos recentes na sempre tola sociedade brasileira de hoje me chamaram a atenção. Esses protestos de internet sempre foram divertidos, mas agora já estão sendo só vergonhosos mesmo.
O caso Rafinha Bastos
O Rafinha Bastos é um imbecil. Sempre foi, desde antes de chegar à televisão. Pra quem não se lembra, ele tinha um conhecido site de piadinhas tão ou mais pavorosas do que as asneiras que ele andou falando por aí em rede nacional.
Daí, só pra variar, ele extrapolou a tênue linha entre o politicamente incorreto e o grosseiro, que só aquelas pessoas com um talento que ele não possui conseguem traçar.
Como ele já vinha falando bobagem há muito tempo e, dessa vez, envolveu o filho ainda por nascer de uma mulher, as pessoas se cansaram, celebridades se revoltaram e o cara foi atacado por todos os lados.
Não precisa me conhecer pra saber que eu meio que detesto a Wanessa Camargo, né? Ela representa tudo de ruim que há na cultura brasileira, ou na falta desta. Só conseguiu alguma visibilidade por ser filha de famosos. Tem o talento de um pé de jequitibá. Suas "músicas" (hahahaha, adoro falar que a Wanessa Camargo canta "músicas") dispensam delongas. Ainda por cima, é a única mulher do mundo que, mesmo tendo dinheiro, não consegue ficar bonita.
Não importa. Ela é a esposa de alguém, vai ser mãe de alguém, e você simplesmente não fala que vai comer o bebê de alguém. O mandamento universal do humor dispõe que, pra uma piada ser boa, todos os envolvidos tem que rir dela. Não foi, nem de longe, o caso. Enfim.
Venho criticando, há tempos, o emburrecimento da humanidade. Parece que quanto mais informação temos, mais estúpidos ficamos. É inacreditável como nossa geração é vazia e burra. As pessoas repassam informação ruim sem nem pensar sobre o que estão retransmitindo. Ninguém tem opinião, ninguém pensa, todo mundo só repassa o que ouviu e achou bonito. Vivemos uma geração de songamongas.
Cada polêmica traz, consigo, uma horda de gênios pensadores e filósofos. Com o caso Rafinha, não poderia ter sido diferente. Não deu uma semana, e algum gênio criou uma imagem no Facebook que dizia coisas como:
BRASIL O PAIS ENQUE COMEDIANTES SAUM LEVADOS A SERIO E POLITICOS SAUM LEVADOS NAS BRINKDERA11.1
Olha, essa afirmação é tão vergonhosa pra mim enquanto ser humano que vou procurar nem me alongar muito. Só quero saber o seguinte: O QUE DIABOS O RAFINHA BASTOS TEM A VER COM POLÍTICO CORRUPTO? QUAL A RELAÇÃO ENTRE OS DOIS? ENTÃO SE POUCOS POLÍTICOS SÃO CONDENADOS PELAS FALCATRUAS QUE FAZEM, NÓS NÃO PODEMOS FAZER MAIS NADA, A NÃO SER PASSAR O DIA INTEIRO XINGANDO-OS?
É a mesma coisa de dizer "não vou comer alface, porque alface é verde, e a bandeira da Suécia é azul". Usar um assunto totalmente diferente do outro como argumento tem um nome: falácia.
O câncer do Lula
Bom, eu não gosto do Lula. Gosto da Dilma, mas não dele. Na minha opinião, ele colheu louros passados, mudou o nome, se apropriou das glórias e agora fica posando de revolucionário. Foi um bom presidente porque deu continuidade ao que já vinha sendo feito, mas usou tudo isso para personificar, em si mesmo, a figura do herói nacional. Gostei - com ressalvas - de sua política continuísta, mas não gosto da pessoa dele. Mas isso não vem ao caso.
O episódio do câncer do nosso ex-presidente refletiu, como poucas vezes, todo o despreparo das pessoas no que tange à interpretação básica da língua portuguesa. As pessoas estão se formando médicas, advogadas e engenheiras, mas não possuem a menor competência para fazer o que o ser humano sempre deve fazer quando recebe alguma informação: parar e pensar.
A frase era simples: algo como "Lula, faça tratamento no SUS."
Como vivemos em uma era asquerosamente politicamente correta, na qual toda e qualquer forma de expressão que não tente agradar a tudo e a todos - mesmo que o politicamente incorreto tenha sido motor de grandes críticas que mudaram os rumos da sociedade ocidental ao longo do século passado -, os defensores da moral e dos bons costumes começaram a rosnar em duas correntes de pensamento distintas.
A primeira foi sobre a doença do ex-presidente em si:
NOSA Q ABÇURDOOO TAUM CRITIKNDO O CANSER DO PRESIDENET GTE ISO NAUM SEFAS NAUM C BRINK CO ISOO Q FALTA DE RESPEITO NA DIGUINIDADE DA PESOA UMANA SEUS RIDICULOOOOO 11!.
Esse grupo, há 50 anos atrás, teria sido composto por velhinhas nascidas no século XIX, adeptas do casamento com dote e do manual da boa esposa. Hoje, é formado por gente com menos de 30 anos e com toda a informação do mundo ao clique do mouse.
A segunda genialidade de interpretação do português é pior ainda. Fala sobre o Sistema Público de Saúde:
NOSAAA VOSES TAUM AI FALANO MAU DO SUS MAIS O SUS EH MASA ELE DA OS REMEDIO PROS POBRER E VOSES FALAO COMO SI ELE FOSE INDIGUINO NOSA VOSES CRITIKA O BRASIL ENTUDOOOOO1!<..,1
De repente, o SUS virou o mais moderno e espetacular sistema de saúde do mundo, como se jornais de circulação nacional não tivessem passado o mês retrasado inteirinho documentando, inclusive com fotos e filmagens, a péssima situação da rede pública de saúde no norte/nordeste.
Entendo que, em algumas regiões, o SUS funcione bem decentemente, mas daí a dizer que é um sistema imune a críticas é o cúmulo da falta de informação, a.k.a ignorância. Tipo "eu fui e recebi meu remedinho que nem a Finlândia dá de graça." Ótimo. Bom pra você. Meus parabéns, você é um campeão do Tony Tigre da Kellogg's. Mas tem gente por aí morrendo em corredor por falta de atendimento. Viva com isso.
De qualquer forma, não importa. A crítica inicial ("Lula, trate-se no SUS") não fala nem sobre uma coisa nem sobre outra. Não precisa ser gênio para pegar a sacada. Não precisa nem ter terminado a quinta série. Só precisa saber raciocinar.
Não estão sacaneando a doença do ex-presidente, e não estão jogando todo o SUS na lama. A crítica é sobre o próprio discurso do cara enquanto presidente.
Vou tentar resumir: se você tem memória, vai se lembrar que, em várias ocasiões, o Lula fez pronunciamentos oficiais sobre o quão perfeito era o SUS. Nas palavras dele, o SUS era "o mais moderno e completo sistema de saúde do mundo". Não fui eu quem disse, foi ele.
E é aí, e só aí, que a crítica recai. Ora, se ele criou um sistema público de saúde tão supimpa, por que não passou nem perto dele quando precisou? Ninguém está zombando do câncer do cara, e ninguém está massacrando o SUS como se fosse o pior e mais indigno tratamento já dispensado a um ser humano. Sério, uma criança espertinha já saca a ironia de primeira.
Concorde ou não, é essa a crítica. Sim, porque para entender uma crítica, você não precisa concordar ou discordar dela. Eu mesmo só concordo em partes. Mas daí a interpretar uma simples frase como um suíno retardado e sair internet afora propagando bobagem, já são outros quinhentos.
Se o Lula tem condições de se tratar no Sírio-Libanês, onde uma Aspirina deve custar uns R$ 30,00, bom pra ele. Que se recupere logo, pois ninguém no mundo merece ter câncer. Nem mesmo os sertanejos e pagodeiros. (Bom, nesse caso... Não, não. Pensando bem, nem eles. Tadinhos.) Mas, de qualquer forma, recusar o SUS implica em reconhecimento tácito, indireto, de que o sistema não é assim tão maravilhoso, né? De que o discurso de outrora não era exatamente verdadeiro, né? Que rolou uma mentirinha aqui e outra ali, como todo bom político demagogo, né? Ponto. É só isso. Sem drama.